Béla Guttmann foi uma espécie de Jorge Jesus, para o São Paulo, nos anos 50

Béla Guttmann foi uma espécie de Jorge Jesus, para o São Paulo, nos anos 50 Agência Estado/03-01-1958 e Agência Estado/Eldio Suzano/27-10-19

Vou contar um segredo. Sempre que inicio um texto, empaco. Fico preso às minhas ideias, a frases que já assimilei, em um estilo que disfarça as minhas inseguranças. Suponho que isso ocorra com a maioria das pessoas.

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Muitas vezes recorro a outros textos, geralmente de grandes romancistas, cheios de vivência na arte e na vida, para me inspirar. E sinto que eles são fundamentais para dar vazão à minha criatividade.

Sem eles, se eu já me sinto muitas vezes aprisionado pelos meus hábitos, seria ainda pior. Poderia ficar horas e horas sem conseguir iniciar uma frase diferente.

Longe de querer imitá-los, autores diferentes pelo menos me ajudam a sair do lugar, a me orientar na nau das incertezas que emerge das palavras escritas.

Suspeito que tal situação vale para qualquer profissão. Inclusive a de técnico de futebol, como se pode perceber ao se olhar toda a trajetória do esporte no País. Os técnicos estrangeiros foram determinantes para a evolução do futebol brasileiro.

Fizeram o tal papel dos romancistas que, com visão de mundo, inspiram novas ideias. A sensação que dá é que, hoje no Brasil, os técnicos estão aprisionados em alguns poucos conceitos.

Desde os anos 10 e 20, treinadores vindos de outros países se mostraram imprescindíveis para impulsionar o futebol que, diga-se de passagem, é um esporte criado fora do Brasil e com conceitos nascidos em outra parte do mundo.

Charlie Williams, primeiro goleiro do Arsenal, foi técnico do Fluminense. O argentino Ramon Platero, do Vasco em 1923.

Mas, assim que o profissionalismo foi instaurado no Brasil, nos anos 30, a missão dos estrangeiros ganhou ainda mais relevância.

Foram eles que trouxeram esquemas para, poucas décadas depois, fazerem do Brasil o país do futebol, já que nenhuma outra nação tinha, ou tem, a qualidade técnica do jogador brasileiro. E em tanta quantidade.

O novo W-M

Izidor Kruschner, o Dori, húngaro, foi o primeiro deles. Ele apresentou ao Brasil o sistema W-M, criado pelo inglês Herbert Chapmann, com três zagueiros, quatro meio-campistas formando um quadrado e três atacantes.

Chegou ao Flamengo em 1937, após uma vitoriosa passagem pelo Grasshopper, da Suíça, clube no qual jogou, nos anos 80, o ponta-dirita Paulo César (ex-São Paulo).

Dori não conseguiu títulos, mas inspirou Flávio Costa que, de jogador do clube, passou a técnico, comandando a equipe no tricampeonato carioca de 1942-43-44.

Um dos destaques foi o então centro-médio argentino Carlos Martín Volante, que, originando posteriormente um novo esquema, inspirou o nome da posição de volante. Depois ele também foi técnico no País.

Outro estrangeiro, o paraguaio Fleitas Solich, se inspirou no esquema de Dori e o adaptou às características brasileiras, sendo um importante técnico do Fla nos anos 50.

Mesma época em que o brasileiro Zezé Moreira incrementou o W-M e, recuando um médio (para volante) e avançando outro médio (para a posição de ponta-de-lança) criou a chamada diagonal. Ele também montou a marcação por zona.

E, como na vida tudo tem continuidade, Telê Santana, o maior técnico brasileiro de todos os tempos, teve em Zezé Moreira, do qual foi jogador no Fluminense, sua maior inspiração.

Time austríaco e Guardiola

Acabamos derrotados na Copa de 1950 (comandados por Flávio Costa) e de 1954 (por Zezé Moreira), mas o embrião tático estava lançado.

Era preciso, porém, uma nova ideia para aglutinar tudo o que fora feito. E ela veio com o húngaro Béla Guttmann. O seu conceito de jogo se reflete até hoje em estilos como o do técnico Pep Guardiola.

Sem chutões, com a bola de pé em pé e os jogadores trocando passes, até chegarem ao gol. Por ter sido professor de dança, Guttmann transferiu os movimentos harmônicos para os seus esquemas.

Era o esquema da equipe Hakoah, da Áustria, onde Guttmann havia jogado na década de 20, mas que, por ser de origem judaica, foi extinta anos dantes da Segunda Guerra.

Da guerra à reinvenção

Guttmann, que era judeu, foi um sobrevivente de guerra que ajudou a reinventar o futebol brasileiro.

Nos anos 40, mesmo sendo um treinador e ex-jogador prestigiado, ele foi perseguido e só sobreviveu por ter se escondido em um sótão de um prédio em Budapeste, auxiliado, entre outros, por seu cunhado, Pál Moldovány.

Depois, ele treinou o São Paulo em 1957 e seu esquema, base do 4-2-4, inspirou a comissão técnica de Vicente Feola, que trabalhara com ele no time paulista, a montar a seleção brasileira campeã da Copa do Mundo de 1958. Em seguida, o húngaro foi bicampeão europeu pelo Benfica, lançando o craque Eusébio.

Até os anos 70, pode-se dizer que os estrangeiros tiveram forte influência. Também com técnicos argentinos, como José Poy (anos 60 e 70), no São Paulo e Filpo Nuñez (anos 60), no Palmeiras, e uruguaios, como Ondino Vieira, no Fluminense e Vasco nos anos 40.

Os mais recentes, bastante criticados, também deram seu tempero, já em um momento no qual a pressão da mídia, dos torcedores e dos dirigentes chegava a ser insana.

Somente neste ano de 2019, com trabalhos fantásticos e um encaixe perfeito, os Jorges, Jesus e Sampaoli, recolocaram o futebol brasileiro nesta trilha. São os estrangeiros, muitas vezes, os que mais entendem a alma do jogador brasileiro.

Os que arejam as ideias, no papel dos já citados romancistas. São eles que ajudam os treinadores brasileiros, muitos competentes, quando parece não haver novos caminhos. E transformam o jogo, rearranjando espaços e fazendo do futebol algo que une filosofia e prática. 

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Fonte: R7

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